
Qualquer pessoa que tenha o mínimo de convivência comigo sabe que quando o assunto é animal, eu viro bicho (trocadilho infame).
Já protestei na Paulista pelo direito dos animais, enviei cartas de protesto pro mundo todo (incluindo o Iraque), fui voluntária do extinto GAAR (Grupo de Apoio aos Animais de Rua), e ainda hoje, sou fiel colaboradora da AAAC (Associação dos Amigos dos Animais de Campinas).
Antes de engravidar da Isa, fui pseudo-vegetariana (só comia ovo, leite e peixe), vivia à base de hamburguer, salsicha e nuggets de soja. Voltei a comer carne por causa da falta de estudo do impacto da soja transgênica no feto e blábláblá…
Aliás, eu tenho que contar que pra mim, a carne vem de um lugar mágico e feliz. Imagino que exista uma jardim com árvores de bife e que as coxas de frango nasçam rentes ao chão, como abóboras silvestres. Se passar pela minha cabeça que carne = animal, esqueça que eu não como.
Esse meu trauma vem de longa data. Me lembro de uma feliz noite de Natal, em que a minha mãe fez uma leitoa. E eu fiquei ali, olhando praquele bicho em cima da mesa, os dentinhos na boquinha semi aberta, as orelhinhas penduradas, e pensando, na minha ingenuidade dos 5 anos, o quão grotesco e cruel era aquilo. Fiquei 25 anos sem comer carne de porco. Maldito paladar gravídico, que me fez experimentar novamente a carne suína….
Anyway… Marido obviamente sabe de tudo isso, depois de longos 19 anos comigo. E eis que eu ouço ele ao telefone na sexta passada:
- É. Amanhã eu vou lá escolher e mandar matar o porquinho….
Oi? Como assim, escolher e mandar matar? Eu entendi bem?
- Escuta, só pra ter certeza…. você não vai mandar matar um porco pro Natal né?
- Vou.
- Não vai.
- Vou. Eu to com vontade de comer porco.
- Então vai no açougue e compra 10 kg de porco e coma até ter intoxicação alimentar. Ou vai numa churrascaria e se entope. Mas você não vai assassinar um porco!
- Mas eu não vou matar, vou mandar.
- É a mesma coisa. O dolo é o mesmo. Segundo o budismo, isso é um karma terrível e você vai nascer porco na próxima reencarnação!
- (…)
- Se você quiser trazer o porco vivo, a gente cria ele, igual aquela menina daquele filme (Grande Menina, Pequena Mulher), mas ninguém vai matar o porco.
- Por que?????
- Porque isso é coisa de bárbaro romano. Eu não entendo que graça tem assar o porco e colocar o coitado na mesa, pra ficar olhando pra mim. Você quer que eu vomite na ceia de Natal?
- Ai que exagero!
- Exagero nada. Você não lembra do ano passado (que a minha sogra teve a brilhante idéia de fazer uma leitoa e espetar um garfo nas costas dela e eu fui comer sozinha na beira da piscina, bem longe da mesa)?
- (…)
Duas horas sem conversar com ele.
- Mas eu não posso comer porco?
- Pode. Bem longe de mim.
- Mas….
- Mas você decide. Ou eu ou o porco. Se o porco entrar na noite de natal, eu saio, venho embora pra casa e fico dormindo.
Sábado ele chega e diz:
- Bruxa é f$#@.
- É sobre a minha pessoa?
- Não tinha porco de 12 kg, só de 25, então não peguei.
E que se lembre que nessa data eu salvei a vida de um porco.
Pig power.